A beleza é cinza

Pensava sobre o nosso auto-cuidado,
Como é oco e de cores pétreas.
Caminhava por ruas vazias,
As calçadas eram de terra, com pouca grama.
Olhava mais de perto a areia seca,
Suas rachaduras, inaceitáveis à beleza humana,
Mas não à paisagem.
Mais à frente da caminhada,
Vejo uma exuberante vegetação ao fundo,
Árvores comerciais criando florestas artificiais.
Perto dela, a beleza dos montes
Onde jogamos nossos restos,
Mais imortais que nós mesmos,
Os tratamos como lixo.
Ah! A beleza, plástica, é de fato de plástico.
E a insensatez ignorante toma formas inapropriadas,
Para as quais fecham os vidros dos carros, fingem não ver.
Parei por um momento para observar ao meu redor
O que vi eram cinzas e o cinza: será que veria o céu azul de novo? Triste beleza de um mundo criado por nós.
Então, me estendi pelo imundo e renegado monte que alí apodrecia:
O que sou eu no meio do lixo?
Talvez, o que resta da beleza humana.

The open door

Ouço o som dos seus sapatos duros tocarem as pedras na rua.
Ruídos elegantes e rápidos, tornam os gritos rítmicos,
Mas não ignoram o ranger dos dentes.
Estranho som de paz aos inexperientes.
É uma marcha – uma passagem.

Distante, ela ressoa como ondas que se arrebentam na costa,
É possível confundi-las.
Quem a vê com esperança nota as espumas na areia,
Repartindo-se e voltando ao mar.
Se é água ou um emaranhado de bolhas,
É impossível distingui-las.

Caminhamos pela praia.
Chinelos, bitucas de cigarro, algas e espuma,
O som das ondas – uma irresistível harmonia.
Seu olhar, um enigma,
Mas coloco todas as coisas sobre a mesma mesa.
No meu olhar, a contraditória apatia.

O vento empurra o mar até a costa e
Os arredores se tornam cada vez mais estreitos e irregulares.
Andamos por uma trilha de pedras até o seu final.
Sou daqueles que adora voar quando a estrada termina,
Mas te vejo distante, embora estejamos tão próximos do ponto de partida.
Às vezes esquecemos o que escolhemos e você quer voltar para casa.

Para descobrir-te devo ver a diferença,
Mesmo sobre a mesma mesa.
Uma senhora reclama de suas dívidas ao fundo,
As meninas querem um amante,
Homens falam sobre futebol.
Nós olhamos o mar e nos entreolhamos.

Talvez a lacuna,
Talvez o que é esperado,
Talvez o desejo de ser esperado,
Talvez o beijo.
Ouço o som de uma porta se abrindo.

Eu não tenho valor

Eu não tenho valor como homem

Não tenho valor como artista

Sou facilmente esquecido entre os amigos

Não se lembram do meu aniversário

Cumprimentam-me por utilidade

Vivo para meu trabalho, mas nele, sou apenas máquina servil

Meu grupo diz ter união, mas desfazem-se de mim

Ele é triste, depressivo

Sem sal, uma pessoa apática

Um fracasso, gordo

O que importa?

Não há valor para uma vida.

Afinal, valor é para mercados

E a vida é para todos.

Ritual da (minha) desconstrução

Parece que as carências inflam as emoções erradas,
E as certas demandam uma reflexão cotidiana.
Sempre busquei resolver meus conflitos e minhas questões
Através da minha própria fala, embora nunca tenha sido bom em falar.
(Como neste texto que, em versos, traz uma prosa.)

Não costumo falar com as pessoas e elas me olham com estranheza.
Seus olhares percorrem todos os cantos do meu corpo,
Nunca sabem quem eu sou e não procuram saber:
Me veem pela luz do Sol, mas nunca pela sombra.
Eu sempre busco onde me agarrar, mas eu fujo.

Escrevendo é onde encontro meu refúgio.
É aqui, quase escondido de todos
Que eu deixo o que tiver que entrar, sair.
Mas você é sempre bem-vinde.

É aqui que percebo as expectativas sobre a minha voz:
Uma voz no mundo em harmonias dissonantes.
Eu penso antes de falar, mas não compreendo mais o mundo.
Penso no outro e não falo, pois as vozes assumem muitos tons.
Eu me desconstruo no meu silêncio. Deixo quem sente falar.

À não-memória de tudo o que se é lembrado.

Os olhares tem perdido o brilho.
Eles nos contam, somos milhares de milhões,
Sempre números, e estamos mortos nesta poesia póstuma.

Se a morte de todas as coisas já existe,
Então, o que realmente morre?
Talvez – essa constante palavra – tudo o que está em nossa não-memória.

Mas não morremos quando nos esquecemos,
Pois, o que se esquece está vivo em nossa memória.

Morre-se quando se nega a própria memória, o nosso próprio tempo.
Nós mesmos e todas as pessoas.
O que não queremos ver,
Em nossos mundos reais e imaginários.
Os encontros que deixamos,
As lágrimas que escorrem quando nascemos,
Nossa vida nas escolas,
O olhar que se entrelaçou entre as frestas de nossas salas de aula,
O beijo escondido na festa,
As flores que deixei no seu carro,
A primeira conversa pela webcam,
E o poema de Manuel Bandeira:
“Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres” – ele disse.

Te lembro, estamos mortos,
Não porque nos esqueceram, mas porque não significamos nada.
Triste dizer que, nossas palavras,
Ninguém mais as enxerga,
Pois sempre fomos o fogo
Vislumbrando a luz das vitórias,
Forjando heróis e mitos
Efêmeros, da luta ao sangue.
Apagados pelo julgamento de sua própria reprodução.

À não-memória de tudo o que se é lembrado:

O que tenho esquecido se tornou o meu tempo, a minha morte.
E ela é aquele que me acolhe e me amadurece,
Faz (re)brotar a semente,
Devolve à terra o que plantamos.
Amor.

Nesse tempo,

Tenho esquecido de tudo o que sou.
Pois quero que me enterrem todos os dias,
Como essa semente da memória.
Para que floresçam poesias,
Canções,
Arte.

Te bendigo, meu tempo.
O que tempo que tive,
O tempo que tenho,
E os tempos que virão.